sexta-feira, 31 de março de 2017

Selfie

(Só para adultos)

Elas têm um contrato com o espelho.
E é bom que este lhes mostre coisas bonitas e bem feitas senão temos sarilhos. 
O cabelo tem de estar no sítio, o peito firme, as pernas bem torneadas e o traseiro em condições de encher umas calças bem justinhas. Fazem "biquinho", puxam o cabelo mais para um lado e fixam a imagem que vai desorientar os homens que elas querem atingir. Elas adoram-se. São bombas na cama. Prestam-se para tudo, informam-se bem das últimas tendências e praticam bastante. Vão puxando os homens que querem para junto delas com aquelas imagens que prometem bons momentos. Têm ousadia no falar, não são inseguras nem tímidas e respondem à letra. Têm seduções na ponta da língua e sabem como dizer as coisas "daquela maneira". E ao fim de algum tempo conseguem ser levadas para um canto qualquer escuro e darem a provar as coisas que mostravam naquelas fotografias, onde pareciam tão solitárias e tão carentes. E eles tornam-se os seus escravos por alguns momentos, enquanto as legítimas estão no lugar delas, preocupadas com os quilos a mais, os filhos, a celulite, o desapego, as obrigações e inconscientemente a desejar ser como uma daquelas, e ter os espelhos a mostrarem-lhes o melhor delas, irrepreensíveis. Desejam ter um homem que as considere deusas na vida dele. É o que todas queremos. Sermos as únicas da vida dele, sermos especiais para ele, e dignas de o ter descontrolado nos nossos braços. Aquele. Aquele. O que nos promete coisas, o que nos fez filhos, o que nos adoptou e nos foi buscar. Mas as feras andam por aí e eles deixam-se comer por qualquer motivo... e no fim de contas é um jogo de gato e rato, de gente que se alimenta uns dos outros e mais nada. 

Eles voltam para as suas famílias e fingem estar tudo normal. 
E elas despem a roupa ao fim do dia, tiram as pestanas postiças, o batom vermelho e os saltos altos e deitam-se desguedelhadas. E por mais gente que tenha lá entrado, nenhum ficou a sério. Nem um. Choram, lembram-se de quando eram meninas no colo dos pais e era tudo tão inocente e adormecem para depois voltar tudo ao mesmo no dia seguinte... até ver!

Ao fim do dia as máscaras caem todas.
Ao fim do dia somos todas iguais.



sexta-feira, 24 de março de 2017

Para a Madalena


Uma amiga recente perguntou-me há dias porque é que eu escrevia um blog e porque é que escrevo as coisas que escrevo. Acho que ela estranha serem coisas um bocado "sérias" e "demasiado emotivas". São um bocadinho sérias e talvez desinteressantes para se conversar numa mesa de café, mas é precisamente por isso que as escrevo aqui e não as converso muitas vezes, nem com toda a gente. Aqui não entra "toda a gente", entra quem quer e regressa quem gostar do que lê. Resolvi então explicar-me um bocadinho, o que se torna mais fácil escrevendo do que a falar.

Escrevo porque gosto muito de o fazer desde pequena, e porque preciso criar e extravasar o meu cérebro hiperactivo. Preciso de criar coisas todos os dias senão não funciono muito bem. A música, a imagem e a escrita são o meu ambiente desde sempre. Este blog não é muito divulgado, por isso faz-me sentir que estou num sítio "pouco frequentado" onde tenho alguma liberdade de expressão. Além disso, um dia morro tal como acontece a toda a gente, e gostava de deixar as minhas ideias e sentimentos registados, mesmo que mais ninguém os leia. Para já, eu sou a mais beneficiada por poder dizer o que me apetece.

Gosto de maquilhagem, sapatos, roupas bonitas, gosto de gastar dinheiro quando o posso fazer, mas aborrece-me falar disso. Aborrecem-me as conversas de algumas mulheres e é por isso que não escrevo um blog a contar como penso vestir-me nesta Primavera ou que cores vou usar quando pintar os olhos. Talvez por isso tenha mais amigos homens... eles não me vão perguntar essas coisas. Sofri de depressão durante e depois do parto do Lucas e costumo dizer que antes dele eu era uma coisa e depois dele sou outra. A que escreve hoje é obviamente a "pós-Lucas" e é por isso que escrevo as coisas que aqui estão, "pesadas" para uns, "normais" para outros. "Normais" para mim, sem dúvida.

Passei a olhar as pessoas de outra maneira e a dar valor à dor. Em vez de fugir daquilo que normalmente achamos que é feio, senti necessidade de olhar essas coisas de frente. Não sei se foi por ter passado por um parto no qual as dores pareciam não ter fim e ninguém as poder aliviar, tenho a noção de que tenho o meu lugar no mundo, mas também sei que a minha importância por si só, é limitada.

Acredito em Deus desde sempre, sempre fez sentido para mim desde a minha infância, mas sei hoje que não é um Deus de religiões. É um Deus próximo. E sei que não há "santinhos" a flutuar por aí. Há gente que se sacrifica por outros. Basicamente, o que aprendi e se reflecte nos meus textos é que há mais do que aquilo que vemos. Não gosto de me ficar pela superficie, preciso ver além disso. Gosto de saber os porquês e as razões que levam as pessoas a fazerem o que fazem e a serem como são. Talvez por isso algumas pessoas acham que me considero "sabichona" mas não concordo nada e deixo-as andar.

Gosto de pessoas, mas não gosto de me aproximar de todas. Algumas prefiro vê-las de longe e apreciá-las à distância porque ao perto magoam-me e deixam-me desconfortável. Detesto que queiram mudar-me sem me tentarem conhecer primeiro e resisto muito a essas. Não gosto delas. Vi que todos podemos cair. Todos. Qualquer um de nós pode ir parar a um hospício, qualquer um pode tornar-se marginal. A prostituta não perde valor perto de uma senhora de bem. Uma senhora de bem pode prostituir-se por dentro apesar de vestir boas roupas. De hoje para amanhã podemos ficar sem abrigo... ninguém sabe. O que eu sei é que encontrei a minha paz quando comecei a ver estas coisas todas. E reconheci mais uma vez que aquilo que me faz levantar de manhã não são as coisas nem o "ter coisas" mas o Amor. E não é Amor de homens e mulheres que hoje é e amanhã sabe-se lá, é Deus. Esse é o tipo de Amor que te faz querer dar tudo o que tens independentemente de seres amada ou não. E é de uma força sobre-humana. Foi preciso passar pelo turbilhão durante meses a fio para saír dele a pensar assim, e hoje escrevo coisas que podem parecer melancólicas e negativas, mas são resultado de um processo que eu não escolhi passar, mas teve de ser. E valeu a pena.

Não sou uma pessoa triste, apenas sinto um bocado demais da conta. Também sinto felicidade todos os dias em coisas que nem te passam pela cabeça... um dia escrevo tudo num texto e ficas a perceber. No mundo não existe apenas uma cor, existem muitas, algumas que os nossos olhos não percebem, mas que estão lá.

Parece-me que tu és uma dessas...