terça-feira, 21 de novembro de 2017

Alice Délice

Conheci a Alice há mais de 20 anos se não me falham as contas. Parece uma bonequinha de porcelana - a pele muito branca, os cabelos muito loiros e os olhos muito azuis. Estudámos juntas e pude ver a forma como ela produz arte. Sempre foi uma pessoa de muita inspiração e muito ligada à beleza. Tem um lado muito luminoso mas também vai a sítios muito escuros, como as florestas densas da Suíça, onde ela vive hoje com a família. Sempre foi muito alegre e de muita empatia para com os seus amigos. Hoje ela enviou-me uma fotografia sua e pude ver que está igual. Mesmo depois destes anos todos e de 3 filhos, ela continua muito linda e continua a ser uma artista, o que para mim é um acto de coragem, porque é difícil sê-lo.

Quando eu falo em ser artista não me refiro à glória de fazer um trabalho que provoque o espanto das pessoas e seja um sucesso. Ser artista é muitas vezes ter de estar sozinho e traduzir sozinho o que se absorve. E se não se deita cá para fora o que se aprende, gera-se uma grande aflição. É difícil ser diferente Alice, como tu sempre foste. Mas no fim das contas as pessoas precisam de ti exactamente porque lhes dás coisas diferentes do habitual. E não tens de mudar a tua estrutura, até porque não temos poder para isso, apenas Deus pode.
E podemos estar sozinhos por uma estação, mas nunca para sempre.

Obrigada pela tua linda fotografia, continuas linda.
Alice Délice! 💓



sábado, 27 de maio de 2017

A canção da árvore

Uma árvore nunca muda de lugar. Ela muda as folhas, renova os frutos mas sempre no mesmo sítio. Uma árvore nunca muda de identidade. As que nascem para dar laranjas nunca darão pêssegos, pois nasceram para serem laranjeiras e sê-lo-ão para sempre. As árvores são firmes a vida toda. Perseveram, não têm medo do que vem a longo prazo, sabem esperar e dão frutos no tempo certo. Dão o seu próprio fruto, segundo a sua natureza. São confiáveis, certas e estão sempre lá. Não importa a estação do ano, são muito fortes.

Há grandes árvores, imponentes, poderosas e fortes, mas que se sentem um arbusto. Têm potencial para dar a volta ao mundo mas temem saír do lugar onde estão. Sentem-se arbustos porque alguém, algum dia lhes disse que nunca iriam passar disso, e uma mentira dita no momento certo pode encolher-nos por toda a vida. Pessoas que já caídas foram ainda mais humilhadas em vez de serem ajudadas a levantarem-se. Hoje ouvi uma música que me inspirou a escrever isto e que dizia:

"I choose not to beat you when you're down, but to lift up your arms and say that you were born for greatness and great you will be."

É tempo de os arbustos voltarem a ser árvores.



segunda-feira, 8 de maio de 2017

Uma casa e um menino

Dar-me com pessoas é como entrar numa casa. 
Há casas muito bonitas em que apetece entrar e estar, bem decoradas e espaçosas, mas que exigem que entremos sem sapatos, ou com uma roupa adequada. Temos de ter maneiras, temos de nos saber comportar e refrear, quase como se fosse um templo católico cheio de silêncios. Há casas bonitas e cheias de luz, onde entramos e podemos estar à vontade. Tem uma mesa posta com uma cafeteira de chá quentinho à nossa espera, mas onde apenas nos sentamos para ouvir falar... e não temos oportunidade de falar muito. Há casas pequeninas e escuras, onde não há espaço. 
Há casas inexplicáveis, simples e muito agradáveis onde podemos estar à vontade. Onde podemos falar, onde entramos sem cerimónias e queremos ficar mais um bocadinho, sem termos vergonha de comer mais uma ou duas fatias de bolo. Rimos ou choramos conforme o ambiente. 

Para mim há duas coisas fundamentais numa amizade - conforto e segurança. Tal como numa casa. Conforto suficiente para estar à vontade, segurança para ser à vontade. O meu Lucas faz-me sentir isto muitas vezes. Porque tem 3 anos de vida e já consegue ser consolo e segurança para uma mulher de 41. Sabe dizer-me o que gosta ou não em mim, se prefere o cabelo apanhado ou solto, se gosta do que visto ou do que vejo na TV, se estou mais triste dá-me beijinhos nas bochechas e põe-me a rir num instante. Ele é bom para mim mesmo quando lhe ralho... ele desafia-me e é muito exigente mas nunca me sinto mal por isso. Porque o coração dele é puro e eu sei qual a sua intenção. E eu preciso saber quais as verdadeiras intenções que levam as pessoas a fazerem o que fazem. As aparências não me convencem, tal como uma casa grande, moderna, bem decorada e limpa pode não significar que me sinta bem lá dentro. O Lucas nunca precisou de truques, nem sequer precisou de saber falar para eu saber que eu e ele somos ligados por um fio invisível. Ele é a minha casa perfeita e eu a dele, apenas por uma coisa - sabemos o que queremos um do outro.

Conforto e segurança.



sexta-feira, 31 de março de 2017

Selfie

(Só para adultos)

Elas têm um contrato com o espelho.
E é bom que este lhes mostre coisas bonitas e bem feitas senão temos sarilhos. 
O cabelo tem de estar no sítio, o peito firme, as pernas bem torneadas e o traseiro em condições de encher umas calças bem justinhas. Fazem "biquinho", puxam o cabelo mais para um lado e fixam a imagem que vai desorientar os homens que elas querem atingir. Elas adoram-se. São bombas na cama. Prestam-se para tudo, informam-se bem das últimas tendências e praticam bastante. Vão puxando os homens que querem para junto delas com aquelas imagens que prometem bons momentos. Têm ousadia no falar, não são inseguras nem tímidas e respondem à letra. Têm seduções na ponta da língua e sabem como dizer as coisas "daquela maneira". E ao fim de algum tempo conseguem ser levadas para um canto qualquer escuro e darem a provar as coisas que mostravam naquelas fotografias, onde pareciam tão solitárias e tão carentes. E eles tornam-se os seus escravos por alguns momentos, enquanto as legítimas estão no lugar delas, preocupadas com os quilos a mais, os filhos, a celulite, o desapego, as obrigações e inconscientemente a desejar ser como uma daquelas, e ter os espelhos a mostrarem-lhes o melhor delas, irrepreensíveis. Desejam ter um homem que as considere deusas na vida dele. É o que todas queremos. Sermos as únicas da vida dele, sermos especiais para ele, e dignas de o ter descontrolado nos nossos braços. Aquele. Aquele. O que nos promete coisas, o que nos fez filhos, o que nos adoptou e nos foi buscar. Mas as feras andam por aí e eles deixam-se comer por qualquer motivo... e no fim de contas é um jogo de gato e rato, de gente que se alimenta uns dos outros e mais nada. 

Eles voltam para as suas famílias e fingem estar tudo normal. 
E elas despem a roupa ao fim do dia, tiram as pestanas postiças, o batom vermelho e os saltos altos e deitam-se desguedelhadas. E por mais gente que tenha lá entrado, nenhum ficou a sério. Nem um. Choram, lembram-se de quando eram meninas no colo dos pais e era tudo tão inocente e adormecem para depois voltar tudo ao mesmo no dia seguinte... até ver!

Ao fim do dia as máscaras caem todas.
Ao fim do dia somos todas iguais.



sexta-feira, 24 de março de 2017

Para a Madalena


Uma amiga recente perguntou-me há dias porque é que eu escrevia um blog e porque é que escrevo as coisas que escrevo. Acho que ela estranha serem coisas um bocado "sérias" e "demasiado emotivas". São um bocadinho sérias e talvez desinteressantes para se conversar numa mesa de café, mas é precisamente por isso que as escrevo aqui e não as converso muitas vezes, nem com toda a gente. Aqui não entra "toda a gente", entra quem quer e regressa quem gostar do que lê. Resolvi então explicar-me um bocadinho, o que se torna mais fácil escrevendo do que a falar.

Escrevo porque gosto muito de o fazer desde pequena, e porque preciso criar e extravasar o meu cérebro hiperactivo. Preciso de criar coisas todos os dias senão não funciono muito bem. A música, a imagem e a escrita são o meu ambiente desde sempre. Este blog não é muito divulgado, por isso faz-me sentir que estou num sítio "pouco frequentado" onde tenho alguma liberdade de expressão. Além disso, um dia morro tal como acontece a toda a gente, e gostava de deixar as minhas ideias e sentimentos registados, mesmo que mais ninguém os leia. Para já, eu sou a mais beneficiada por poder dizer o que me apetece.

Gosto de maquilhagem, sapatos, roupas bonitas, gosto de gastar dinheiro quando o posso fazer, mas aborrece-me falar disso. Aborrecem-me as conversas de algumas mulheres e é por isso que não escrevo um blog a contar como penso vestir-me nesta Primavera ou que cores vou usar quando pintar os olhos. Talvez por isso tenha mais amigos homens... eles não me vão perguntar essas coisas. Sofri de depressão durante e depois do parto do Lucas e costumo dizer que antes dele eu era uma coisa e depois dele sou outra. A que escreve hoje é obviamente a "pós-Lucas" e é por isso que escrevo as coisas que aqui estão, "pesadas" para uns, "normais" para outros. "Normais" para mim, sem dúvida.

Passei a olhar as pessoas de outra maneira e a dar valor à dor. Em vez de fugir daquilo que normalmente achamos que é feio, senti necessidade de olhar essas coisas de frente. Não sei se foi por ter passado por um parto no qual as dores pareciam não ter fim e ninguém as poder aliviar, tenho a noção de que tenho o meu lugar no mundo, mas também sei que a minha importância por si só, é limitada.

Acredito em Deus desde sempre, sempre fez sentido para mim desde a minha infância, mas sei hoje que não é um Deus de religiões. É um Deus próximo. E sei que não há "santinhos" a flutuar por aí. Há gente que se sacrifica por outros. Basicamente, o que aprendi e se reflecte nos meus textos é que há mais do que aquilo que vemos. Não gosto de me ficar pela superficie, preciso ver além disso. Gosto de saber os porquês e as razões que levam as pessoas a fazerem o que fazem e a serem como são. Talvez por isso algumas pessoas acham que me considero "sabichona" mas não concordo nada e deixo-as andar.

Gosto de pessoas, mas não gosto de me aproximar de todas. Algumas prefiro vê-las de longe e apreciá-las à distância porque ao perto magoam-me e deixam-me desconfortável. Detesto que queiram mudar-me sem me tentarem conhecer primeiro e resisto muito a essas. Não gosto delas. Vi que todos podemos cair. Todos. Qualquer um de nós pode ir parar a um hospício, qualquer um pode tornar-se marginal. A prostituta não perde valor perto de uma senhora de bem. Uma senhora de bem pode prostituir-se por dentro apesar de vestir boas roupas. De hoje para amanhã podemos ficar sem abrigo... ninguém sabe. O que eu sei é que encontrei a minha paz quando comecei a ver estas coisas todas. E reconheci mais uma vez que aquilo que me faz levantar de manhã não são as coisas nem o "ter coisas" mas o Amor. E não é Amor de homens e mulheres que hoje é e amanhã sabe-se lá, é Deus. Esse é o tipo de Amor que te faz querer dar tudo o que tens independentemente de seres amada ou não. E é de uma força sobre-humana. Foi preciso passar pelo turbilhão durante meses a fio para saír dele a pensar assim, e hoje escrevo coisas que podem parecer melancólicas e negativas, mas são resultado de um processo que eu não escolhi passar, mas teve de ser. E valeu a pena.

Não sou uma pessoa triste, apenas sinto um bocado demais da conta. Também sinto felicidade todos os dias em coisas que nem te passam pela cabeça... um dia escrevo tudo num texto e ficas a perceber. No mundo não existe apenas uma cor, existem muitas, algumas que os nossos olhos não percebem, mas que estão lá.

Parece-me que tu és uma dessas...

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

No Palácio do Rei Árabe

Estive com alguém com quem não estava há algum tempo.
Combinámos encontrar-nos para conversar e relaxar um bocadinho como fazíamos antigamente quando ainda tínhamos oportunidade e as tarefas nos permitiam. 
E assim fizemos. Fomos a um lugar lindíssimo, que mais parece um Palácio de um Rei - é enorme, cheio de pedra mármore e vidros brilhantes, espelhos, pilares trabalhados, mesas e cadeiras sem fim... e por sorte, não havia ninguém quando entrámos. Era tudo nosso. Tem um ar árabe que me agradou muito por gostar de coisas relacionadas com o Médio Oriente e quando lá vou parece que estou noutro país.

Conversámos quase tudo o que vivemos nestes meses todos de ausência, como se nos tivessemos visto ontem. O bom e o mau, sem tabus. E ali não houve ninguém a cobrar nada, nem sentimentos de culpa, nem meias verdades, nem futilidades. Ninguém precisou de ralhetes nem de insinuações. Tudo limpo, tudo puro, tudo certo. Respeito.
Saí de coração cheio porque tudo fez sentido. Matei saudades e vi que o tempo nos melhorou muito. Não me interessa que estejam comigo apenas para me dizerem coisas boas e agradáveis. Eu estou aqui para os turbilhões da vida dos outros, sem problema. Já descobri que essa é uma das minhas funções e espero cumpri-la bem. Não me interessam apenas os brilhos do mármore, eu quero saber a verdade, mesmo que não seja brilhante e ter onde confiar o meu lado mais obscuro. 
Ter onde pousar sem me queimar. Poder ser e ter um pilar. E só preciso de uma coisa - Respeito. 

A essa pessoa eu agradeço o muito tempo que me dispensou e tudo o que me tem dado sem eu pedir. Foi tão importante o tempo que estive com ela que me fez querer escrever. E hoje eu posso dizer com toda a confiança:

"Quando fracassares não te esqueças que eu estou cá para ti."




domingo, 22 de janeiro de 2017

A Coragem do Novo Ano

Pensamos nos desejos de Ano Novo como sendo das coisas mais fantásticas da nossa vida inteira. A cada ano que passa, a nossa vontade de sermos e termos o que mais queremos, aumenta. Existe no ar o cheiro das possibilidades e das conquistas, porque o mundo inteiro está nesse espírito e por um dia ou dois vivemos essa adrenalina toda. É bom sonhar, é bom ter planos. Eu sou daquelas pessoas que acredita que podemos conquistar tudo a que nos propomos se os nossos pensamentos e vontades estiverem de acordo com isso. Eu sou daquelas que acha que não há pessoas feias... e fico chocada quando elas aparecem.

Há pessoas horríveis por dentro. Há pessoas doentes. E eu tenho de ensinar o meu filho acerca disso. Tenho de lhe ensinar que no meio dos nossos sonhos de Ano Novo, vão sempre surgir dificuldades e pessoas que não gostam de nós. Que há amigos que não o são, apenas querem consumir o que temos para dar e que depois se vão embora e nos deixam sozinhos. Que há quem tenha tanto ódio no coração que consegue fazer-nos sentir náuseas e que no meio da multidão há bom e mau e que não se distinguem logo à primeira. O Lucas precisa saber disto, mas sem ficar amargo. Precisa saber que a mãe tem um lado mau como as outras pessoas, que precisa ser lidado todos os dias e refreado pelas escolhas que faz. Que ela não tem nada de cor de rosa, e que ele também não será completamente perfeito.

Se temos grandes desejos de Ano Novo, preparemo-nos porque eles podem realizar-se. Porém, junto com o brilho vêm quase sempre coisas escuras e feias que supostamente não pertencem ao cenário, mas que fazem parte dele. E temos de saber lidar com elas. Virão pessoas más, virão contratempos, virão tempestades, tudo junto com o Sonho. E apenas teremos de fazer uma coisa, que é o que as pessoas mais poderosas da terra fazem: passar pelo meio do fogo e sobreviver sem ficarmos amargos. Estas são as pessoas que tornam o mundo mais bonito, estas conseguem ressuscitar mortos se preciso fosse, pois têm o coração alinhado e purificado.

Gostava de passar estas coisas ao meu filho. 
Tem de existir alguém capaz de amar as pessoas más sem se tornar uma delas. Porque quem fere, geralmente foi ferido e quem consegue quebrar este ciclo é uma verdadeira revolução. E para mim, conseguir isto é um verdadeiro sonho de Ano Novo.