quarta-feira, 27 de abril de 2016

Não tenho medo do sol

Muitas vezes as pessoas falam dos desertos da vida, aquelas épocas em que as coisas parecem mais escuras, em que não se vê o que se gostaria de ver, épocas de adversidade. Logicamente que difere muito de uma época de alegria e de riso, mas pessoalmente não considero que esta seja melhor. É mais leve, é um alívio ter as coisas a correr bem, mas não é necessariamente melhor, para mim pelo menos.

Os desertos são lugares bonitos. A imensidão da areia recorda-nos da nossa pequenez e das nossas incapacidades. O sol é forte e não temos com que o evitar. É difícil ter sombras. Há pó. É seco. Mas aprende-se muito. No meio do deserto tenho as minhas alturas mais criativas. Sou mais sensível aos outros. Registo coisas, absorvo. E no devido tempo ponho cá para fora. No meio do deserto treino as minhas resistências, fico mais perto de Deus e construo coisas. Nada é desperdiçado, nada é deitado fora, apenas se refaz. No deserto há uma coisa que gosto - espaço. Não há ninguém, não há muita comida nem bebida, há espaço e ar. O deserto é um lugar de crescimento e de maturidade e feliz do que o passa humilde e pacientemente. Dali saem aqueles que um dia darão alimento a outros.



quinta-feira, 21 de abril de 2016

A face da verdade

Se queres saber quem és na realidade e o que a vida pretende de ti, vai para tua casa, longe das vozes que te cercam, da excessiva informação e dos barulhos da TV e repara nos teus comportamentos e nas coisas que te fazem rir e nas que te fazem chorar. Ali não tens quem te observe e ninguém te pode julgar. Nós somos nós quando estamos sós. Sossega-te contigo mesmo e confronta-te. Aquilo que muitas vezes tentas esconder dos demais e que sai à luz quando ninguém vê é a tua essencia. E se tiveres de tomar decisões escolhe aquela que te trouxer mais paz ao coração. E se esta for a mais difícil, sê corajoso e assume-a mesmo que te venha a prejudicar em alguma coisa. Sê honesto, sê verdadeiro. As coisas boas são quase sempre as mais difíceis, mas trazem consigo a tranquilidade.

A solidão é por vezes uma boa companhia.


terça-feira, 19 de abril de 2016

O Senhor das Moscas

A insegurança deve ser uma das sensações mais comprometedoras. Nascemos com a necessidade básica e instintiva de sentir proximidade e confiança nas pessoas e no ambiente que nos rodeia. Qualquer criança precisa disto, até mesmo um animal. Quando por algum motivo a satisfação dessa necessidade nos é negada, coisas pesadas tomam lugar em nós. A revolta e a rebeldia. O desejo de ver nos outros as nossas próprias misérias a terem lugar. Confusão, anarquia, caos. Tudo isto porque em algum momento ao longo do caminho nos tiraram o tapete de debaixo dos pés e nos sentimos caír. Infelizmente a "sociedade gentil" está a terminar. Os valores perderam significado e nascemos para desde cedo sermos traumatizados de uma ou de outra maneira.

Seremos apenas mais um pedaço de carne, usável e manipulável se ninguém nos mostrar o verdadeiro valor da alma humana e o sentido da vida perder-se-á se nunca houver alguém em quem possamos confiar plenamente. Porque tudo se resume a isto e nada funciona sem isto - amor. E amor não é só sentir e dizer. É mostrar e é ser. Caso contrário estaremos todos entregues a um estranho Senhor.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Não és.

Há dias em que chegamos ás 6 da tarde e parece que é meia noite. O cansaço é tanto, e às vezes as frustrações são tão grandes e o desânimo quase impossível de destruir. Acontece a todos os que nasceram neste planeta e que têm sangue a sério a correr nas veias. O que torna tudo tão insuportável não são propriamente os sentimentos que temos nem as emoções que se agigantam mas os sentimentos de culpa que originam esses estados. Sentimos culpa por tudo o que não funciona, tudo o que não fizemos, tudo o que não agradámos. "Não sou capaz. Não sou feliz. Não sou nada." Já recuperei algumas vezes desses estados apenas por cheirar canela moída ou algo cítrico. Mas para mim o mais poderoso e que me faz voltar ao cerne da minha vida é lembrar-me que "eu não sou o meu trabalho, eu não sou as frustrações, eu não sou as doenças, eu não sou perfeita." E as coisas voltam a ganhar a sua graça e as forças retornam e tudo se endireita. Não fora de mim, mas cá dentro, e isso é mesmo o mais importante. A Bíblia chama a isso "Graça" e é mais poderoso do que uma caixa de antidepressivos.





segunda-feira, 4 de abril de 2016

A chuva que cai é a chuva que lava.

Sinto falta do sol e do calor. As flores da Primavera já romperam, as andorinhas já se instalaram por aí, já houve dias de céu completamente azul, mas a chuva regressa sempre e o frio não deixa guardar os casacos de Inverno. Tento sempre ver o lado bom da chuva quando ela nos contraria. A chuva deixa tudo mais limpo, mais verde. A chuva lava as ruas e os carros, os telhados e o ar. Fica um cheiro bom. A chuva rega, enche as reservas, dá de beber, alivia da poluição... mas não lava tudo. Há coisas que a chuva não lava que são os nossos pensamentos. Não lava o que nos aborrece, não lava o sentir falta, não lava tristezas. Hoje lia que "estes dias cinzentos são inspiradores para mentes inquietas". Acho que sim. Se servir para amanhã ser melhor, terá valido a pena chover mais um pouco.


sábado, 2 de abril de 2016

Quando tudo se reordena.

Não é preciso ter-se uma vida muito complicada para haver stress. Não precisamos necessariamente de horários apertados, longas filas de trânsito e falta de dinheiro para nos sentirmos angústiados. Cheguei a essa conclusão acerca de mim há pouco tempo atrás. A angústia pode tomar conta de mim mesmo quando tudo corre bem. Se dentro de mim não existir ordem, fico infeliz. E posso estar a passar pelo meio de um tufão, mas se existir ordem no meu interior consigo suportar. Tudo passa. Comigo, a ordem vem quando encontro coisas para fotografar. Quando a vida se oferece para eu a captar, faz de mim a pessoa mais poderosa do mundo. A fotografia tirada e logo partilhada para o mundo é uma terapia. Já parei o carro em sítios improváveis só pela ânsia de captar qualquer coisa. Já andei por caminhos enlameados, entrei em estradas proibidas e fiquei muito frustrada quando algum dos meus temas me foge. Cheguei à conclusão que a minha essência é esta: absorver para dar. E quando obedeço à minha essência, tudo se reordena.